Revista ASBRAV – Entrevista

A poluição e as doenças respiratórias tornam, cada vez, mais importante o debate sobre a qualidade do ar que respiramos. Em meio a esse cenário, o setor vive grande expectativa com a aprovação da legislação que estabeleceu a obrigatoriedade do Plano de Manutenção, Operação e Controle (PMOC), mas ainda há muito a ser feito. Para entender melhor o assunto, conversamos com o diretor da EcoQuest Brasil e membro do Qualindoor, departamento nacional de Qualidade do Ar Interno da ABRAVA – Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento, Henrique Cury.

Revista ASBRAV – Qual a importância de empresas, organizações e a população como um todo estarem atentas ao tema da Qualidade do Ar?

Henrique Cury – Cada vez mais passamos grande parte de nosso tempo em ambientes fechados. A Organização Mundial de Saúde diz que a qualidade do ar interno geralmente é de 5 a 10 vezes pior que o ar externo, mesmo em cidades poluídas como São Paulo. A poluição Indoor, termo que define os poluentes causados por agentes internos podem ser biológicos ( microorganismos), químicos ( gases voláteis) ou físicos ( poeira). Ambientes com muita gente e com sistema de ventilação inadequado é um polo gerador de doenças.

 

Revista ASBRAV – Como você vê a questão do uso exagerado de splits?

Henrique Cury – Os splits foram originalmente inventados para atender a demanda doméstica. Devido ao seu baixo custo e fácil instalação, muitos ambientes comerciais utilizam esse método para climatização. Existe uma enorme discussão acadêmica sobre a má utilização desta solução que, geralmente, não possui renovação, deixando a qualidade do ar interno ruim, podendo levar a contaminação cruzada. Não são poucos os casos de utilização de split em hospitais no Brasil, o que é um absurdo se considerarmos que são ambientes com alto nível de contaminação microbiológica. Mesmo em restaurantes, por exemplo, splits em cima de uma bancada de comida é considerado um grande erro. O split tem que ser usado com parcimônia, sempre verificando as possíveis fontes de contaminação do local a ser instalado.

Revista ASBRAV – Quais caminhos para fiscalização adequada das instalações?

Henrique Cury – Hoje temos o PMOC, Plano de Manutenção, Operação e Controle, cada vez mais utilizado na manutenção dos sistemas de ar-condiconado. A ABRAVA possui um trabalho incessante junto aos órgãos reguladores para que a qualidade do ar interno seja enquadrada através de uma lei. Hoje a Portaria 3523 do Ministério da Saúde e a RE 09 são regulatórias e pretende-se que tenham força de lei num futuro próximo.

 

Revista ASBRAV – Que tecnologias existem inovadoras nesse segmento?

Henrique Cury – Além da filtragem e da ventilação, hoje, existem inúmeras tecnologias qualificadas para a melhoria da qualidade do ar interno. A nova NBR 16401 além da nova norma de Hospitais , a NBR 7256, consideraram válidas novas tecnologias desde que devidamente comprovadas em sua eficiência e , principalmente, segurança. Algumas delas são a fotocatálise, a ionização bi-polar, filtros polarizados, lâmpadas UV para a descontaminação da serpentina e a limpeza do ar por adsorção; Todas as novas tecnologias devem ser constantemente monitoradas para verificação de sua eficácia. Além disso, devem ser amplamente estudadas antes de serem aplicadas , com demonstração de testes feito por instituições de renome como o IPT – Insituto de Pesquisas Tecnológicos.

Revista ASBRAV- Quais doenças mais preocupantes?

Henrique Cury – Várias são as doenças que podem ser contraídas em ambientes internos com ar contaminado. De simples alergias como rinites a situações mais graves como por exemplo, a Aspergilose. O fungo Aspergillus Niger, amplamente encontrado em hospitais durante reformas , pode causar sérios problemas a pacientes com imunidade rebaixada. Além de microorganismos, os próprios gases voláteis em excesso como monóxido de carbono, formaldeído, amônia, entre outros, podem causar danos à saúde.

Revista ASBRAV- A população tem consciência da importância deste tema?

Henrique Cury – Não. São poucas as pessoas que se preocupam com este tema. Posso dizer que desde que entrou em vigor a Portaria 3523 em 1998, houve um crescimento constante desta conscientização mas ainda está longe de estar num patamar aceitável. Infelizmente o brasileiro tende sempre a remediar seus problemas sem se preocupar com a prevenção.

 

Revista ASBRAV- O Brasil vem tomando iniciativas neste sentido de fiscalização?

Henrique Cury – Sim. Existem vários projetos tramitando na Câmara dos Deputados em relação a qualidade do ar. Além disso, inspetores da Vigilância Sanitária vem sendo treinado em todo o país por profissionais capacitados ligado à Abrava para verificar os sistemas de ar-condicionado. Sou otimista e acredito que esta consciência, através de um aperto da fiscalização, será bem maior num futuro bem próximo